sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

À espera do nosso primeiro beijo

Naquela noite as paredes estavam despidas. O murmúrio era como um anestésico no meio de tanta azáfama. De um lado para o outro no espaço cénico cumpria religiosamente todas as marcações,  em pontas molhadas, água para evitar uma queda durante a performance.
Eis que o grande final levou o publico para a sala ao lado. Olhei pela janela enquanto esperava a sala ficar vazia. A noite  era limpa e trânslúcida. Vesti-me tranquilamente atrás de um biombo usado na peça equanto todos falavam da apresentação. Sorria simplesmente feliz. As expectativas que me atormentavam em dias passados não passavam através daquele biombo. Ali me encontrava mais uma vez a limpar os pés com toalhetes e preenchida pelo movimento, pelo corpo.
Eis a festa. Os aromas surgiam de uma bacia onde uma ventoinha metálica as fazia espalhar .
As bebidas ganhavam uma espiritualidade elegante ao som de experimentais aromas, as pessoas deixavam os corpos entregues a Baco, eu sorria desprotegida  de encontro a todos os olhares, apenas sorria.
Ali estavas com teu o teu corpo emergente naquela celebração onde um mercado se transformou em palco de moda. Não me lembro das primeiras palavras que me dirigiste, creio ter-te ignorado por não teres um sorriso límpido. Não foste embora e enquanto pedia uma bebida agarraste-me a mão e citas-te a celebre frase que me fez olhar realmente para ti, agarraste-me a mão direita, fizeste uma pausa e com um olhar água prosseguiste “ - vamo-nos apaixonar e fugir para as Filipinas?”; soltei uma gargalhada daquelas que fazem vibrar o corpo todo e deixei que me guiasses.
Ali estava eu contigo sem saber o teu nome e a sorrir com tudo o que dizias, estavas contra o mundo e enquanto enrolavas a magia das estrelas,parei para te escutar. Quem era aquele menino tão revoltado com aquela cristalina noite? Quem era aquele rapaz com olhos cor de nascer do dia num vale verdejante que a todos tratava mal...enquanto isso eu sorria e cada vez mais tinha vontade de descobrir toda a fúria que o rapaz dos caracóis despejava.
Num carro vermelho fiz-me deslocar contigo plenamente consciente da tua alteração  e  da  tua doce agressividade.
Foi das viagens mais surreais que fiz com alguém. Nunca antes me tinha aventurado a ser conduzida por um estranho de caracóis.
Numa escada no meio da loucura de um bairro à noite falamos. A tua doce agressividade se transformou numa nuvem perdida e sem rumo mas branca, muito branca.
Fizeste me pensar por ti, entrar em ti para ouvir os teus surdos gritos. Com três desejos me despedi de ti. Apenas me pediste dois “ um beijo” e “ ser feliz”! No meu de uma tumultuosa multidão deixei de sentir a tua mão nas minhas costas e sem o teu beijo pedido encerramos a noite ali.
O dia Mundial da Dança tinha ficado ali com a imagem de te ver desaparecer como que foge de uma penitenciaria.

As histórias de amor não tem um inicio ou um final previsto.

O sol tinha vindo para te dar as boas vindas na terra do vinho. Esperei-te na estação. Corremos juntos os bolhão, as fontaínhas ,conversamos em muros cuja histórias como as nossas também por lá se cruzaram ...a revolta já não habitava em ti. O teu olhar era terno como um agagio de malher.
Tive vontade de te beijar. Continuamos ate ao rio onde os barcos esperavam para serem fotografados por ti, sentada na relva olhava para a tua calma procurando o plano perfeito a luz daquele momento onde o calor ressoava noa nossos corpos. Olhava para ti sem me cansar. Estranho pensava eu, já há muito que não me cansava de olhar para ninguém!

O primeiro beijo. O meu corpo estava embriagado por uma calma enquanto ouvia o teu pulsar sair pela boca. O mundo parou, os nossos lábios aproximaram-se e só ai percebi que não ia ser mais um beijo. O beijo, aquele que faz com que tudo se estagne e o tempo deixa de ser uma condicionante porque não mais vai terminar...O Beijo. Aquele que quando me deito e fecho os olhos me faz transportar até ti e o fará para todo o sempre.


A viagem. Os dias felizes que partilhamos com o mundo. Tudo era perfeito. Alemanha e os patos com números que passeavam em jardim público...Amesterdão e o amor que espalhamos nas noites no nosso quarto de tecido impermiavél! O rio antes de chegar a parque onde me abraçavas para expulsar o frio, a noite em que as ruas eram de sódio e esperávamos o Dam , gravei cada segundo daquela espera, os teus braços a envolver-me como se pudéssemos ficar ali os dois para sempre.
Era uma adolescente a viver o meu primeiro amor, sem medo, sem questões...Austria, Berlim. Veneza, Florêcia...tantos dias apaixonadamente felizes.

Nunca tive medo de um fim, a felicidade só é possível quando somos livres.

Eu descobri a liberdade contigo, a vontade de voar cada vez mais longe sem saber onde aterrar.

1 comentário:

  1. uau, Ji! estou a adorar!
    e esta é só mais uma forma de nos mantermos em contacto :*

    ResponderEliminar